sexta-feira, 2 de março de 2018

O Iluminismo e os Reis Filósofos - É Hora de Ler 8. 2018


Por Ricardo de Moura Borges.

Para ter acesso a obra completa basta clicar aqui, e boa leitura!

FORTES, Luís Roberto Salinas. O Iluminismo e os Reis Filósofos. São Paulo: Brasiliense,2004.

       Praticamente um livro de bolso que proporciona uma reflexão sobre um dos momentos mais marcantes para o início da história contemporânea, que é o Iluminismo, ou época das Luzes, caracterizado pelo marco do ano de 1789. O livro está dividido no seguintes capítulos: Introdução, Os filósofos reis, Luzes que se acendem; A "vanguarda" iluminada, O Evangelho dos Novos Tempos, Os reis filósofos?,  A Emancipação difícil, e por fim, indicações para leitura.
       O autor foi professor de História da Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Nasceu em 1937 e morreu em 1987. Ressaltamos que essa pequena obra, nos dias atuais é referência nos cursos de História, indicada na bibliografia nos planos de cursos de algumas disciplinas, pois proporciona problematizações pertinentes nos dias atuais.
       A obra apresenta uma leitura agradável estabelecendo constante diálogo com o leitor, na verdade, é um daqueles livros que parece que o autor está realmente sentado na mesa com o leitor tomando um chá ou café e dialogando sobre o tema de forma clara, precisa e trazendo questionamentos que fazem conexões com o tema. 
       Na introdução temos um convite a proposta problemática a partir da questão dos direitos humanos, onde é marcado historicamente o início, como vemos na p. 7: " Pois bem: foi no século XVIII - em 1789, precisamente  - que em uma Assembléia Constituinte - outra fórmula politica, que também se encontra na ordem do dia, ao menos no Brasil - produziu e proclamou em Paris solenemente, a primeira " Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão" de que se tem notícia. Nessa perspectiva de que antes desse marco o homem não existia, inicia-se a discussão sobre e antes disso? Como era? Que movimento deu-se nessa culminância? E até mesmo pensarmos que mesmo que existam os direitos do homem, não necessariamente podemos concluir que são cumpridos efetivamente. O foco porém, é tentar entender a p. " mutação no plano das ideias e mentalidades" no período da Revolução Francesa. Esse rico arsenal de ideias na Europa pode ser estudado a partir de três lugares distintos mas que produziram muito, que são a França, a Inglaterra e a Alemanha. E a partir dos documentos desta filosofia é que podemos encontrar essas mentalidades, por exemplo, em p. 8 "O Espírito das Leis de Montesquieu, que estão ligados Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, Diderot, D'Alembert e outros". Dessa forma, ou autor nos dias que para compreender o iluminismo temos que p. 9 " estudá-lo bem de perto e interrogá-lo, problematizá-lo", para entender que os homens iluministas valorizam a razão, justamente para tornarem-se livres e autônomos. Lembremos da ordem básica ensinada e encontrada nos livros didáticos: Liberdade, igualdade e Fraternidade, que na verdade ( rimando...) modificou-se por completo a partir de sua estruturação pós movimento revolucionário.
          No capítulo os Filósofos-reis, temos uma original feita de um jogo de cartas de 1793 produzido por Gayant, na cidade de Paris, uma ilustração de filósofos nas cartas de Baralho, aliás não apenas "filósofos" de " virtudes" e de " soldados da República". O autor coloca em evidencia apenas a representação dos reis, onde temos o rei de paus a figura de Rousseau e no lugar do rei de ouros temos Voltaire, sendo que os dois outros reis tem-se "homens de letras", a saber: La Fontaine e Molière. A referência a reis filósofos, com analogia a menção da República de Platão, onde quem deve governar é o rei-filósofo, agora invertido para filósofo rei, mostra que o ideário do Iluminismo é justamente um reino dado pela Razão, p. " eis a ideia mestra das Luze, eis aí sua palavra de ordem principal".  Contudo esse movimento está marcado por uma multiplicidade de ideais e como aversão aos grandes sistemas filosóficos estipulados até então: Descartes e Spinoza, e também que entre esses pensadores não existe uma seita, um partido politico, mas uma luta, e se algo os une é a proposta de formulação da Enciclopédia.  Esse processo de transformação e analisado na França, Inglaterra ou na Alemanha está marcado pelo lento processo de transição do sistema feudal para o sistema capitalista, dado desde o século XV.  Diderot diz p. 16: " Cada século tem um espírito que o caracteriza: o espírito do nosso parece ser o da liberdade". Essa liberdade está marcada frente a tradição da religião católica que entra em crise devido a decadência do sistema feudal. Com o alvorecer de novos pensadores, o mercantilismo e cientistas fazemos entender as palavras de Poper, poeta inglês ao declarar que p. 26: " A natureza e as suas leis jaziam na obscuridade./ Deus disse: " Que Newton seja", e tudo se tornou luz". 
           Temos em Luzes que se Ascendem dois filósofos iluministas que fazem parte dessa geração: Montesquieu e Voltaire. Primeiro Charles Louis de Secondat que nasceu em 18 de janeiro de 1689 no castelo de la Brède, nas proximidades de Bordeaux. Esse é Montesquieu o autor de O Espírito das Leis, onde apresenta como tese central, p. 33: " As leis, escritas ou não, que governam os povos não são fruto do capricho ou do arbítrio de quem legisla.  Ao contrário decorrem da realidade social e histórica concreta própria ao povo considerado". O que é uma lei? p. 34 " As leis, na sua significação mais extensa, são as relações necessárias que derivam da natureza das coisas".  Interessante que a partir das questões de Montesquieu, anos mais tarde o sociólogo Durkheim p. 38 " considera Montesquieu e Rousseau os grandes precursores da sociologia.  Em linhas gerais temos o p. 40 " Polemista, vigoroso, crítico mordaz da Religião e da Monarquia", François Marie Arout, que nasceu em Paris no ano de 1694 e morreu no ano de 1778. Sua vida pode ser dividida em dois períodos: Uma brilhante carreira nas letras, e depois dos 60 anos de idade volta-se para uma atuação politica intensa, sendo que sua vida vida estão direcionadas para p. 41 " a Razão e o seu exercício". Mesmo sendo crítico da Igreja não se considera ateu e até escreve p. 42: " Noutros tempos , qualquer pessoa  que fosse detentora de um segredo numa arte, corria logo o perigo de ser tomada por feiticeiro; qualquer seita nova era logo acusada de imolar criancinhas nos seus sacrifícios e atos de cultos e o filósofo que se afastasse da terminologia da escola - ou seja, da filosofia escolástica - era acusado de ateísmo pelos fanáticos e pelos velhacos e condenado pelos idiotas". 
             Os tempos da Vanguarda Iluminada são marcadas pelo destaque que se tem da França em particular Paris nesse período, onde p. 46 Marivaux " na sua famosa tirada diz que Paris - diz ele - é o mundo; o resto da terra é o seu subúrbio".  Claro que o iluminismo atingiu outras partes do mundo, como a América nos Estados Unidos e no Brasil com a implantação da república de um estado laico dentre outros fatores. O iluminismo está ligado a formação da Enciclopédia, que se destacam: Diderot, Rousseu, Voltaire, Montesquieu, D' Alembert,  Encontramos p. 50 " como expostas em uma vitrina, as ideias principais da burguesia do século XVIII". A principal figura é Diderot que exerceu muita influência com seus contemporâneos, p. 52 " escreveu peças de teatro, romances e ensaios filosóficos".  É com Diderot que rompe-se definitivamente os laços entre Filosofia e Teologia, pois este professa p. 55 " ateísmo e um consequente materialismo".  Temos a ramificação do  iluminismo na Alemanha onde destacamos os pensadores: Wolff Reimarus, Lessing e Herder.
             No Evangelho dos Novos Tempos temos uma breve observação sobre a vida do filósofo que marcou época Jean Jacques Rousseau que se destaca como filósofo cristão, para ele p. 65 " há um mesmo Deus que rege o  universo, Senhor supremo tal como ensinam as páginas desse livro imortal que é a Bíblia". Primeiro em sua vida interessou-se por música e depois atingiu o campo da literatura sendo aplaudido e perseguido. Escreveu várias obras, mas apontamos O Contrato Social e o Emílio que trata da Educação como as principais ou as mais discutidas até os nossos dias. Rousseau seria iluminista? p. 72 : " Não se sabe. O que se sabe de efetivo é que sua obra é mesmo muito complicada, com mil meandros e aparentes contradições insuperáveis. Ele parece desdizer em uma página o que disse em outra. Briga com todo mundo, como já dissemos, com os clérigos católicos de um lado e, de outro, com o partido adverso, os dos philosophes. Todos fazem dele uma imagem terrível e o fantasiam como a um verdadeiro monstro insociável a escrever paradoxos ininteligíveis". Na verdade Rousseau é um cristão sincero, por não concordar com os materialistas e ateus da Enciclopédia e criticar os padres, acabava-se isolando, pois p. 73 " tinha, pois, logicamente, que romper, embora conservando com eles longínquos laços e acreditando na sua Razão histórica".
            Os Réis filósofos são justamente os reis despostas que encontramos nos livros de história que movidos e motivados pelos ideais iluministas muitas vezes financiavam as obras dos filósofos e protegiam quando eram perseguidos.  Frederico II da Prússia destaca-se como déspota esclarecido, que além de atividade como governante deixou uma obra teórico filosófica. Escreveu a obra Anti Machiavel ( 1740); História do Meu tempo ( 1746), Testamento Político ( 1752), Ensaios sobre formas de Governo e Sobre os Deveres do Soberano ( 1746). Como nos diz o autor p. 77: Além da proteção e do incentivo que dedica às letras, às artes e às ciências, internamente Frederico é um agente "moderninzador" para as regiões atrasadas da Prússia".  Uma rainha que se destaca é Catarina que também ajudou muitos filósofos e agiu como agente modernizadora. produziu p. 79: " grandes transformações no país, produzindo, por exemplo, a edificação de um grande parque industrial de minas e metalurgia de ferro e cobre na intensa região dos montes Urais".
         No ultimo capítulo temos a Emancipação difícil, onde a reflexão recai sobre a continuidade do movimento iluminista, que na verdade trouxe uma lógica de solidificação do capitalismo, dando as riquezas estabelecidas das mãos dos Senhores feudais agora para os poderosos e pomposos burgueses. Seriam os iluministas fiéis ao espírito iluminista (p.86), pergunta o autor e responde com Kant p. 86 " Ousar saber: parece um milagre até que essa reinvindicação tenha aparecido na época e tenha sido levantada heroicamente por um punhado de terríveis literatos políticos. Depois do capitalismo quis se somar a seus sonhos e deles se apoderou, acabando por destroçá-lo de maneira impiedosa".
        Teria o sonho Iluminista acabado de vez? Fome, miséria e contradição social e politica é o que vivenciamos, assim como vivenciaram aqueles como Rousseuau e lutaram pela Revolução. Este livro proporciona uma crítica social e intelectual de forma perspicaz inquietando o leitor atento. 
          Boa leitura, nos encontramos na próxima resenha de livro, pois ler é o caminho!


domingo, 25 de fevereiro de 2018

Jornal Corujinha - Escola PEC - 2018





Acesse a Primeira Edição do Jornal Corujinha da Escola Estadual Pedro Evangelista Caminha, com publicações, charges, desenhos e muito mais, produzidos pela comunidade escolar apresentando de forma interativa e dinâmica uma reflexão sobre a escola contemporânea. 
   Basta clicar em: CORUJINHA JORNAL 2018 para ter acesso. Boa leitura!

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A Revolução dos Bichos - É Hora de Ler 7 . 2018

Por Ricardo de Moura Borges



 ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. São Paulo: Globo, 2000. p. 118.

           A presente obra é marcada por uma peculiaridade pertinente, pois é uma daquelas obras que contam uma história fabulosa, mas quando o leitor torna-se atento percebe que a mesma está arraigada de uma critica social. O autor Eric Blair publicou essa obra em 1945, na Inglaterra, justamente em um período em que a história mundial estava finalizando a segunda Guerra Mundial.  Possui uma narrativa simples, agradável e de fácil compreensão, contudo foge dos padrões das histórias que estamos acostumados de ouvir ou ler, sendo que o fim não está marcado de " todos viveram felizes para sempre", mas demonstra uma análise dos tempos sociais que estão sendo vivenciados em uma visão politica de mundo.
           A história se passa numa fazenda, " a Granja do  Solar", onde o fazendeiro Jones é desapropriado pelos animais que são mal tratados, passando fome e sede, assim começa a revolução, mas está é conscientizada anteriormente por um Major ( porco), teve um sonho, que começa a questionar sobre a natureza da vida dos animais, que está pautada em servir o ser humano, assim como as galinhas que oferecem ovos e carne, como as vacas que oferecem carne e leite, assim como os porcos que oferecem carne, e os demais que trabalham cotidianamente mas não são gratificados como deveriam. Esse processo de conscientização leva a afirmativa de que p. 9 " O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pagar uma lebre", chegando a compor uma melodia, que é repassada para os demais animais, conhecida como 'Bichos da Inglaterra '.
                 O major após três noites faleceu e o corpo foi enterrado no fundo do pomar. O que aconteceu foi que p. 15 " As palavras do Major haviam dado uma perspectiva de vida inteiramente nova aos animais de maior inteligencia da granja". Estes animais que tomaram a frente da mobilização eram justamente os porcos.  Os três porcos que aparecem na história com grande destaque são : Bola de Neve, Napoleão e Garganta, ambos com suas personalidades, nem sempre concordando uns com os outros, mas sempre "orientando" os demais animais para a verdadeira revolução dos Bichos. Como o fazendeiro Jones se demonstrava como um tirano, esquecendo até de alimentar os animais ficou muito mais fácil haver uma revolução na fazendo, sendo que ao expulsarem o fazendeiro, fecharam a casa grande e estabeleceram sete mandamentos, a saber: 1 - Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo; 2 - O que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo; 3 - Nenhum animal usará roupa; 4- Nenhum animal dormirá em cama; 5 - Nenhum animal beberá álcool; 6 - Nenhum animal matará outro animal; 7 - Todos os animais são iguais; Todos os domingos era estiada a bandeira verde com os símbolos da revolução. 
                      Os ideais primevos, pareciam solidificar uma convivência que parecia ser maravilhosa, contudo, percebeu-se logo que aqueles que dominavam uma cultura letrada " superior", ou seja, os porcos passaram a demonstrar habilidades para manusear os sete mandamentos ao seu favor. Foi o que aconteceu quando Bola de Neve e Napoleão se desentenderam por causa da construção de um Moinho de Vento, onde Bola de Neve fugiu para não ser morto, ferindo assim o sexto mandamento, mas acrescentando que ao menos que este animal não seja inimigo validando assim tal lei; ou quando os porcos apareceram tomando uísque ou cerveja na casa grande, onde foi acrescentado a palavra em Excesso. Um dos personagens mais intrigantes foi Sansão um cavalo forte e robusto que incorporou duas máximas para sua vida: " trabalhar sempre" e " Napoleão tem sempre razão". Quando Sansão mais precisou da ajuda pois estava doente dos pulmões, os porcos não pensaram duas vezes e logo mandaram ele para um carniceiro, dando a entender que ainda ganharam dinheiro pela morte de um dos animais mais fiéis aos princípios do Animalismo. A máxima do Animalismo era p. 31 " QUATRO PERNAS BOM, DUAS PERNAS RUIM". 
               Houve algumas tentativas de invasão na fazenda por parte de Jones e por outros fazendeiros que tinham interesses em conseguir a fazenda e os animais, contudo não tiveram exito graças a bravura dos animais, mesmo assim percebeu-se que aqueles que dominavam a casa, agora porcos que compravam aquilo que a fazenda não podia produzir, como ferraduras, tornaram-se a cada momento, a cada dia mais semelhantes aos homens, chegando ao ponto de vestirem das roupas do senhor Jones e segurarem chicotes para obrigar os animais a trabalhar.  Encontramos essa relação quando na mesa de jantar são convidados fazendeiros para comemorar o crescimento da fazenda, que se está cada vez mais próspera, onde a fazenda enriquece mas os animais continuam pobres como no início ou até antes da revolução. Assim, concluir em seu discurso um fazendeiro chamado Sr. Pilkington p. " Se Vossas Senhorias têm problemas com vossos animais inferiores, nós os temos lá com nossas classes inferiores". Os animais que moravam na fazenda observavam o jantar pela janela e ficaram perplexos no momento em que o fazendeiro homem e o porco e seus familiares porcos começaram a discutir, concluindo que p. 118 " As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco".
                  Uma da obras mais impactantes ao percebemos a crítica feita pelo autor aos ideiais do Major que poderia ser o velho Karl Marx, que propôs o Comunismo, mas não viu sua concretude e a sua aplicação de forma distorcida dada pelos governantes Russos: Lenin e posteriormente Stalin que apregoaram ideias comunistas de cunho que favorecesse o bem de todos, mas que passaram a determinar ordens, duras ou seja ditatoriais. Seria Marx o Major (porco), Lenin ( Bola de Neve - porco) e Stalin ( Napoleão - porco), na história de George Owrell? Não foi a toda que Eric Blair usou esse pseudônimo. No Brasil essa obra foi publicada nos anos de 1964 ( interessante em pleno incio da Ditadura Militar 1964 - 1985). Será que ainda encontramos governantes assim? O que realmente precisa mudar para que de fato uma revolução comunista aconteça? Aliás o comunismo seria o melhor caminho? Ou o capitalismo um dia irá ruir mostrando outra possibilidade? E o socialismo por onde anda? Inferimos que o autor do livro nascido em 1903 e morrendo em 1950, sendo em sua vida jornalista e crítico inglês foi um socialista que atacou tanto o comunismo quanto o capitalismo.
              Esperamos por você na próxima resenha. Não perca! Pois ler é o caminho!   

Confira o filme produzido em 1999:


domingo, 11 de fevereiro de 2018

Fundamentando Pedagogicamente o Ensino Religioso. É Hora de Ler 6. 2018

Por Ricardo de Moura Borges



RODRIGUES, Edile Maria Fracaro. Fundamentando Pedagogicamente o Ensino Religioso. Curitiba: InterSaberes, 2013. p. 173.

        Uma obra de fundamental importância para o aprendizado e aprofundamento sobre uma disciplina que tem pouca carga horária nas escolas, mas que se faz como importante para a formação das dimensões do ser humano. Está dividido em seis capítulos, onde destacamos na sequência de capítulos: Ensino Religioso na Construção de uma Identidade Pedagógica; O Ser Humano, um Ser Questionador; O Ser Humano, Um Ser Sociocultural; O Ser Humano, um Ser Investigador; Desenvolvimento da Experiência Religiosa; e no último capítulo, Conhecimento Religioso: Resultados de um Processo.
               Partido do pressuposto de que o Ensino Religioso é um desafio a ser enfrentado, onde deve-se tratar de pensar o mesmo contemplando as diversas possibilidades de manifestação, lutando contra as formas de preconceito, entendemos que em muitas realidades escolares e discursos proferidos quer por professores ou alunos encontramos uma dogmatização, catecismo ou orientação para uma única possibilidade de manifestação religiosa. O fato de ser facultativo, a compreensão de sua natureza e tratamento metodológico a ser efetivado na sua prática são problemas a serem encarados na realidade escolar. 
           O Ensino Religioso fundamenta-se como área do conhecimento, por isso o livro se fundamenta em três áreas do conhecimento de suma importância: a antropologia, sociologia e a psicologia da criança. Dessa forma, tem como objetivo identificar o processo do conhecimento religioso. Tendo em vista que não é através da teologia que o livro se debruça, mas justamente sobre a perspectiva da Ciência da Religião com a finalidade de favorecer a compreensão do Ensino religioso na esfera nacional. Assim, o livro passa por uma contextualização do Ensino Religioso, depois coloca elementos da identidade deste componente curricular nas escolas demonstrando que o ser humano tem como foco o processo, daí entendemos as dimensões apresentadas acima: aspectos antropológicos ( o ser humano, um ser questionador); aspectos sociológicos ( o ser humano, um ser sócio cultural) e psicológicos ( o ser humano, um ser investigador). A cultura é de fundamental importância a ser estudada, pois esta molda as concepções do ser humano.
          Entendemos que o processo de formação do ensino religioso da-se desde sua formação tenra, onde os pais, as instituições religiosas, a cultura imprime as concepções de religião de cada sujeito. O ensino Religioso  nas escolas em nosso tempo tem um papel diferente de quando a religião oficial do da nação se separou do estado em 1989, quando existia uma aversão com princípios do positivismo no Brasil, apresentando uma laicidade. Como salienta os autores do livro, p. 9: " COMO ÁREA DO CONHECIMENTO, O  Ensino Religioso tem como proposta analisar e pesquisar o campo religioso dentro de sua diversidade, a partir de uma visão ampla. Hoje, o papel do Ensino Religioso na escola é demonstrar e formar alunos críticos que venham a desempenhar uma autonomia no processo investigativo, não desconsiderando a religião ( que é uma forma de conhecimento), mas demonstrando capacidade de entender as diversas possibilidades de manifestações religiosas, saindo do campo da intolerância religiosa. 
            Como destacado acima em caixa alta, percebemos que estamos marcados por uma cultura, ou uma forma de pensar que descaracteriza o Ensino Religioso como área do conhecimento, por isso é necessário destacar a sua importância frente aos desafios enfrentados pelo professor e aluno nas escolas. Assim, como salienta os autores p. 9 e 10: " Sabemos que a Família e a Igreja, são espaços por excelência da reflexão do conhecimento religioso,  mas a escola pode ser um espaço privilegiado para se realizar tais discussões. Longe de quaisquer forma de proselitismo, o espaço escolar pode dar a todo indivíduo a oportunidade de refletir sobre as questões fundamentais de sua existência favorecendo a inserção do aluno no dia-a-dia, nas questões sociais marcantes e em um universo cultural maior". Mas como isso é possível? Primeiro por uma formação solida do professor em Ensino religioso, e não só deste mas de toda a comunidade escolar, para depois por meio de um processo atingir a consciência e maturidade dos alunos para agregarem as ferramentas necessárias no seu processo de desenvolvimento social. 
             O propósito desta resenha não foi apresentar os capítulos separadamente como nas demais resenhas, mas demonstrar como um todo a reflexão proposta pelos autores do livro, mas destacamos a importância da psicologia da educação no processo de ensino-aprendizagem, apresentado no capítulo dois do livro, onde encontramos: 2.2 O desenvolvimento cognitivo segundo Piaget; 2.3Vigotsky: O Pensamento e a Linguagem; e, 2.4: Wallon e a Gênese da Inteligência; Aqui entendemos a necessidade de estudo destes autores que tratam justamente sobre o processo de formação do ser humano em suas diversas fases de vida demonstrando o que é característico de cada fase. 
              Assim, para não concluir entendemos que essa sensação que todos temos de finitude nos leva a um conflito constante nos mostrando a necessidade de busca do Transcendente tanto nos rituais como em outras formas simbólicas. Quando tomamos consciência de nós mesmos ( identidade - até hoje não sei me definir - pensamento do resenhista), dos outros ( alteridade) e do espaço que ocupamos ( cultura), passamos a nos preocupar com o inicio e o fim de nossos destinos. De onde viemos? O que há após a morte?. Contudo, a perspectiva do livro é de compreender o desenvolvimento da criança, suas inquietações sobre a realidade desconhecida. Piaget identificou e estudou o pensamento e a inteligência desde criança até o adulto. Já Vigostsky investigou o papel dos mediadores simbólicos, e destaca-se sobre o estudo da linguagem como processo de formação da mente. Por último Wallon, mostra um estudo sobre a gênese da inteligência é de cunho genético ( de pais para filhos), e organicamente social. Os homens organizam-se por meio da atualização constante da cultura. Dessa forma, o aluno que tem a oportunidade de viver com o diferente, a partir de diversas manifestações religiosas demonstram uma possibilidade de abertura para o conhecimento. Durante a leitura deste livro lembre de uma experiência de campo que tive quando cursava a disciplina Filosofia das Religiões no curso de graduação Licenciatura em Filosofia, onde penso que foi justamente em contato com outras tradições tive um enriquecimento cultural, intelectual quebrando com preconceitos e intolerância religiosa antes tidas. Justamente nessa perspectiva que o livro nos leva a refletir sobre o papel da escola e importância do Ensino Religioso. 
Caro leitor, esperamos por você na próxima resenha! Não Perca, pois, Ler é o Caminho!

           



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Curso de Filosofia - É Hora de Ler 5.2018

Por Ricardo de Moura Borges


REZENDE, Antônio ( Org). Curso de Filosofia: para Professores e alunos do curso de segundo grau e de graduação. 13ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

        O presente livro busca de maneira articulada desenvolver um pensamento sobre alguns filósofos em um contexto histórico abordando suas linhas de pensamento. Está dividido em dezesseis capítulos, onde cada um é desenvolvido por um professor de filosofia de uma universidade, sendo o ultimo capítulos dedicado a filosofia no brasil escrito pelo organizador do livro. Apresentam-se os capítulos da seguinte forma: Pré-Socráticos: físicos e Sofistas de autoria de Maura Iglésias professora da PUC/RJ; Platão e as Idéias escrito por José Américo Motta Pessanha da UFRJ; O Realismo Aristotélico por Maria do Carmo Bettencourt de Faria, UFRJ; A filosofia Cristã por José Silveira da Costa, UFRJ; O Racionalismo Cartesiano por Hilton Japiassú, UFRJ; O Empirismo Inglês por Danilo Marcondes, PUC/RJ e UFF; O Criticismo Kantiano por Valério Rohden, UFRGS; O Positivismo de Comte por Maria Célia Simon, USU; Hegel e a Dialética por Fraklin Trein, UFRJ; O Materialismo Histórico por Wilmar do Valle Barbosa, UFRJ; O Irracionalismo de Kierkegaard por Leda Miranda Huhne, USU, Nietzsche: Uma Crítica Radical por Vera Portocarrero, USU; O Existencialismo de Sartre por Gerd Bornheim, UFRJ; A Filosofia Analítica por Vera Cristina de Andrade Bueno, PUC/RJ e UFF e Luiz Carlos Pereira, Unicamp e PUC/RJ; Visões da Modernidade por Eduardo Jardim de Moraes, PUC, RJ e Kátia Muricy, PUC/RJ; e por fim a Filosofia no Brasil por Antônio Rezende.
          Em linhas gerais no contexto da obra, os artigos citados apresentam uma linguagem clara e um elemento fundante para a construção do pensamento filosófico, sendo justamente o contato do leitor com as obras dos filósofos. Assim, dependendo do artigo encontramos muitas citações que enriquecem o texto dando concretude a ideia do autor sobre um determinado pensamento. Destaco dentre os artigos, sobre a filosofia cristã, que apresenta os filósofos principais entre os dois momentos da filosofia medieval: Patrística e Escolástica em uma continuidade histórica, o que em apenas uma lida sobre o texto, fica fácil a fixação dos conteúdos na mente. Outro artigo interessante é sobre as visões da modernidade que apresenta três filósofos pertinentes para a construção de um alvorecer de uma nova época: Habermas, Hannah Arendt e Michel de Foucalt. Apenas agora com essa leitura entendi aquilo que demorei para aprender na universidade sobre o conceito de poder para Foucalt e espero em próximas pesquisas associá-lo a outros filósofos antes do mesmo, como por exemplo, durante a leitura me veio a cabeça sobre a lógica do poder em Maquiavel. Habermas por ser um filósofo da segunda geração da Escola de Frankfurt, destaca-se por sua visão ou ideologia tecnocrática caracterizando sobre p. 259 " a submissão da esfera da comunicação pela esfera do trabalho passa a não ser nem mesmo percebida pela massa da população, em função dos efeitos do surgimento de uma ideologia tecnocrata".
            A cada artigo encontramos no fim conceitos chaves sobre os temas propostos, somado com questões sobre o texto e questões para debate. Encontramos também outro filósofo que geralmente não está descrito, como por exemplo, na Odisséia da Filosofia. Soren Kierkegaard, que traz a reflexão sobre o irracionalismo colocando em destaque três dimensões do ser humano: a dimensão estética: a questão do prazer na obra Diário de um sedutor; A dimensão ética: questão da liberdade - O desespero humano; e por fim, temos a dimensão religiosa: questão da fé em sua obra Temor e Tremor. Para o filósofo a palavra chave seria angústia que é p. 217: é uma angústia simpatizante, uma simpatia antipática. É um sentimento de inquietude que está presente na fonte da livre opção. Não tem um objeto definido, como o medo; seu objeto é " quase nada". Não é uma falta, não é um fardo, nem mesmo um sofrimento como o desespero. É o solo próprio da liberdade. Nesse sentido, diz que " ela é a própria possibilidade de liberdade". 
           Para não concluir destacamos a importância de se falar na filosofia no Brasil, onde o autor destaca um certo menosprezo ou pouca existência de um conceito e ideias próprias de uma filosofia brasileira. No primeiro tópico temos: A Desqualificação do pensamento Brasileiro que destaca a historiografia dos dois primeiros filósofos brasileiros: Silvio Romero em sua obra A Filosofia no Brasil, 1878; e o Padre Leonel Franca em sua obra em A Filosofia no Brasil, in Noções de História da Filosofia, 1921. 
              O problema é que as duas obras se distanciam e exite uma rejeição por parte de suas ideias. Como salienta Rezende ( 2005, p.275): " Para ambos a causa da debilidade teórica de nossos escritores de filosofia provém da fonte extranacional, donde nutrimos nossas ideias. Apresenta-se Marilena Chauí e Maria Silva Franco como enfrentadoras dessas "ideias fora do lugar" trazidos pelos primeiros filósofos ou filosofantes no Brasil. Sendo o primeiro a pensar as ideias filosóficas entre nós foi Cruz Costa ao p. 276 " verificar o seu papel de instrumento de ação, e principalmente, de ação social e politica.  Outro pensador é o Ubiratan Macedo que usa o termo História das Ideias distinguindo da História da Filosofia. Como aponta Rezende ( 2015, p. 277): " A História das Ideias, porém, estuda estas, sem considerá-las  certas ou erradas, ou se as vigências de nosso tempo as aceitam ou não. Estuda-as tendo em vista sua influência e aceitação em determinada comunidade".  Nesse sentido existe uma aproximação ao pensamento miguelista onde o pensador deve se aproximar da realidade que o mesmo enfrenta. Na filosofia de mangas de camisa temos a justificação do uso do pensamento extranacional tendo em vista que estamos conectados a realidade extra nacional, como afirma Ubiratan Macedo ( 1977), " ... constitucionaliza-se, ensaia um regime representativo, participa do mercado internacional, adota o navio a vapor, os trens de ferro, o romance e o drama romântico e depois o romance e o drama naturalista e realista. Como nos diz Rezende 2015, p. 278: "Tobias Barreto em 1877 por ocasião do Clube Popular, que fundara o Discurso em Mangas de Camisa, designando com essa expressão o estilo de fala informal, sem preocupações retóricas, com que desejava se dirigir aos seus concidadãos no interior de Pernambuco". Chama atenção no decorrer do texto é que a filosofia passou a não ser considerada como aquela que problematiza os problemas sociais, mas em muitas das vezes essa reflexão cabe a outros pensadores, como : sociólogos, economistas, jornalistas dentre outros.
            Em uma linguagem clara e objetiva percebemos que essa obra é de fundamental importância e que pode ser acrescida nas aulas de filosofia no Ensino Médio e Superior, pois a cada leitura entendemos uma gama de possibilidades de se pensar a filosofia trazendo um enriquecimento e aprimoramento de ideias. 
           Caro leitor, esperamos por você na próxima resenha! Não Perca! Ler é o Caminho !

                 
           

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A Odisseia da Filosofia - É Hora de Ler 4. 2018

Por Ricardo de Moura Borges.

BOTELHO, José Francisco. A Odisseia da Filosofia: Uma Breve História da Filosofia. São Paulo: Abril, 2015.

            Um livro de leitura agradável que condensa a história da filosofia com temas e pensamentos juntamente com os do autor. Está divido em doze capítulos, que vão desde os aqueles considerados os primeiros filósofos da história até os mais contemporâneos terminando com uma filosofa que faz uma problemática em relação a liberdade, colocando o problema do bonde assassino, que veremos mais adiante.
              Nos quatro capítulos primeiros encontramos os seguintes títulos: 1) A Aurora da Filosofia Ocidental; 2) O Sátiro de Atenas; 3) A Caverna de Platão; 4 ) Ille Philosophus. Nesses capítulos encontramos os pilares da filosofia antiga desde alguns pré socráticos ao aparecimento do filósofo que foi considerado o pai da biologia: Aristóteles conhecido na Idade Média como O Filósofo por excelência. Na aurora da filosofia encontramos o surgimento a partir de uma necessidade de formulação de um pensamento que não se sustentava mais com o antigo. Os mitos gregos destacados na Ilíada e Odisséia de Homero agora passam a ser vistos com outros olhos a partir dos físicos. Isso mesmo, observadores da natureza que destacam a observação dos fenômenos da natureza e querem descobrir um princípio que originou todas as demais coisas  existentes. O prosseguimento da filosofia deu-se com o Sátiro de Atenas, ou seja, o tão conhecido divisor de águas na História da Filosofia, Sócrates que foi pintado pelos seus discípulos dentre eles Platão como aquele que busca constantemente a verdade por excelência. Considerado como o Esquisitão, p. 57: " Era filho de um certo Sofronisckos, do demo Apoleke - demos eram espécies de clãs ou tribos, que formavam as subdivisões da população ateniense. O demo Alopeke era antigo e tradicional: a família de Sócrates acreditava ser descendente de Dédalo, um famoso personagem da mitologia". Seu pai era escultor e sua mãe era Parteira. Em sua culminância temos a sábia ignorância dada pelo falto de Sócrates colocar em evidência o tão famoso " Só sei que nada sei", colocando que é necessário sempre questionarmos as nossas certezas para sair das aparências a fim de se chegar nas essências. Platão segue os ideias de Sócrates fundando uma escola onde valoriza a Matemática como conhecimento seguro e dividindo a realidade em duas: mundo sensível e mundo inteligível. Um aluno de Platão se destaca muito em sua escola, mas acaba não aceitando todas as teorias do mestre, eis o ille philosophus, Aristóteles.
                Seguindo os próximos quatro capítulos encontramos: 5) O Outono da Filosofia Antiga; 6) O Labirinto de Deus; 7) O demônio de Descartes; 8) Sob olhar da eternidade. Temos uma nova distinção sobre a filosofia na Grécia, marcada justamente pela expansão do Império de Alexandre o grande até o domínio grego pelos romanos. Aqui, encontramos uma fragmentação do pensamento. Aristóteles acaba se exilando longe da cidade de Atenas, toma cicuta e diz que não permitirá que cometam o segundo atentado contra a filosofia ( o primeiro foi contra Sócrates). Surgem novas escolas filosóficas: Cínicos fundado por Diógenes que morava em um barril ( lembremo-nos do Chaves que morava dentro de um barril, ou pelo menos, passava muito tempo dentro deste). Será que Roberto Bolanhos se inspirou em Diógenes?. Na verdade p. 122: "Diógenes foi contemporâneo de Platão e Aristóteles mas não partilho do otimismo em relaçãoo ao mundo e ao conhecimento humano: introspectivo, desconfiado e misantropo".  Engraçado porque tinha como passatempo tirar de tempo muitos filósofos, como por exemplo, " certa vez, em uma palavra pública, Platão definiu o ser humano como um animal bípede e sem plumas. Diógenes capturou um frango, depenou-o e entrou de forma triunfal na Acadêmia, anunciando: ' Aqui está o homem platônico'. Outra escola foi o Céticismo clássico, onde seu fundador foi Pirro ( 365 -275 a. C). Teve influência dos gmnosofistas "que eram andarilhos hindus que se alimentavam apenas de grãos e demonstravam pelo mundo uma total indiferença". De acordo com o ceticismo clássico o mundo está dividido em Realidades e Aparências. As escolas Epicuristas ( fundada por Epicuro 341 a. C - 270 a.C) e a Epicurista ( fundada por Epicuro p.130 "onde acreditava em um universo plenamente corpóreo". Na tão conhecida Idade Média destaca-se grandes pensadores como : Agostinho, Boécio, São Tomás de Aquino e Guilherme de Ockham. Esses filósofos concebiam a filosofia como serva da teologia dando base de sustentação às verdades bíblicas apoiadas pela filosofia. Destacamos Boécio com o livro A Consolação da Filosofia. No inicio da obra descreve a si mesmo em sua cela, atormentado pelo medo, pela solidão e pela autopiedade. Subitamente surge, uma mulher diante do prisioneiro. Ela tem aparência jovem, mas algo em seu rosto denota indefinível antiguidade - é a própria filosofia que vem responder a Boécio por suas lamúrias. Posteriormente encontramos o filosofo da modernidade René Descartes que coloca a dúvida metódica como ferramente para construir um conhecimento seguro: a dúvida hiperbólica. Spnioza propõe no capítulo 8 uma visão da filosofia a partir da sua concepção de um Deus imanente: p. 174: " Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode ser concebido".
            Nos últimos quatro capítulos temos: 9) Gelo quente e fogo frio; 10) Os limites do pensamento; 11) O véu de Maia; e 12) Os sentimentos deste mundo. Nesses capítulos encontramos criticas a formulação de Descartes a partir da visão de David Hume, a formulação de Kant pela critica da Razão Pura e da Razão Crítica. A filosofia de Nietsche e o descrédito que o mesmo deu aos filósofos clássicos. Na verdade ele considerava que Platão, Sócrates e Aristóteles mataram a filosofia que estava viva nos mitos gregos. Hegel e o positivismo sobre a realidade e o mundo em constante progresso. Por fim vemos o pensamento de Sartre onde estamos condenados a ser livres e a nossa essência precede a nossa existência, sendo que só saberemos quem somos no ultimo suspirar de nossas vidas e o filósofo da linguagem Wittgenstein que nos diz: Sobre aquilo que nada pode ser dito devemos manter o silêncio".

Esperamos você caro leitor na próxima resenha de livro. Ler é o Caminho!



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O Príncipe - Maquiavel - É Hora de Ler ! Livro 3. 2018

Por Ricardo de Moura Borges 





MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Pé da Letra, 2010. 126p.

             A presente obra embora tendo sido escrita no ano de 1513 mas publicada em 1532 com a intenção de conseguir garantir espaços de poder antes perdidos por situações politicas. A obra está dividida em vinte e seis capítulos e foi endereçada a Lourenzo de Médici. Encontramos: Dedicatória a Lourenzo de Medici como introdução. Depois por ordem dos capítulos: Quantos tipos são os Principados e de que modos se adquirem; Dos Principados Hereditários; Os Principados Mistos; Por que o Reino de Dário, ocupado por Alexandre, não se rebelou contra sucessores após sua morte; De que Modo Governar as Cidades ou Principados que, antes de serem ocupados, vivam com suas Próprias Leis; Dos Principados Novos que Conquistam com Armas Próprias e com Virtude; Dos Principados Novos que se conquistam com as Armas e Fortuna Alheias; Dos que chegaram ao Principado por meio Traiçoeiro; Do Principado Civil; De que Modo se Devem Medir as Forças de todos os Principados; Dos Principados Eclesiásticos; De quantas Espécies são as milícias, e dos Soldados Mercenários; Dos Soldados Auxiliares, Mistos e Próprios; O que compete a um Príncipe acerca da Milicia; Daquelas coisas pelas quais os Homens, e especialmente os Príncipes, são louvados ou insultados; Da liberdade e da Parcimônia; Da Crueldade e da Piedade; se é melhor ser amado que temido, ou antes temido que amado; De que modo os príncipes devem manter a Fé na Palavra Dada; Como evitar ser Desprezado e Odiado; Se as Fortalezas e muitas outras coisas feitas pelos Príncipes são úteis ou não; O que convém a um Príncipe para ser estimado; Dos secretários que os príncipes tem junto de si; De que forma se afugenta os aduladores; Por que  os Príncipes da Itália perderam seus Estados; De quanto pode a Fortuna nas coisas Humanas e de que modo se pode resistir; Exortação para Procurar Tomar a Itália e Libertá-la das Mãos dos Bábaros; e por fim, encontramos uma Carta a Francesco Vettori. Um livro de linguagem fácil e de bom entendimento, onde encontramos capítulos breves de poucas páginas e que se ligam com os demais. 
               Esse paragrafo nos serve para situarmos nos temas sobre os quais houve a discussão do filósofo florentino. Niccolò di Bernado dei Machiavelli nasceu no dia 3 de maio de 1469 na cidade de Florença, hoje muito lido e discutido por muitos que se dedicam a construção do pensamento politico no Ocidente. Sabe-se que aos sete anos de idade, começou a estudar matemática, latim e logo depois pelo seu empenho começou a estudar grego antigo. A sua família já fazia três séculos em que participava dos cargos públicos da cidade de Florença. Aos vinte e quatro anos de idade Maquiavel tornou-se secretário da república de Florença e copista de um professor de literatura, aos vinte e nove anos foi nomeado chanceler e depois nomeado secretário dos Dez Magistrados da Paz e da Liberdade. 
             A roda da fortuna começa a mudar no ano de 1512, onde dez anos antes Maquiavel foi nomeado por César Borgia ( filho do papa Alexandre VI), representante do governo de Florença. Em 1513 foi preso e torturado por conspirar para a eliminação do cardeal Giovanni de Médici. Nesse período foi exilado, e foi aí onde escreveu uma de suas obras mais conhecidas: O Príncipe. 
      Lembremo-nos que a situação politica e social está passando por inúmeras transformações devido a expansão do comércio, descoberta de novos territórios até então não sabido pelos europeus, confronto com as entidades tradicionais religiosas, como a Igreja Católica, dentre outros fatores que serviram de base para entendermos que o nosso filósofo é fruto de seu tempo, e a partir deste começa a estudar a politica por uma nova ótica, ou por uma que até então não foi observada até o momento, dando sustentação ao pensar politico até a nossa contemporaneidade. Afinal, se fizéssemos a seguinte pergunta a você caro leitor: O poder politico do nosso presidente, governador ou prefeito provém de forças divinas ou de interesses políticos da sociedade e dos jogos de poder? Penso, que de forma unanime encontraríamos a resposta de acordo com a segunda parte da pergunta. Mas no tempo em que Maquiavel viveu não era bem assim a compreensão da politica. 
                Na Idade Média compreendida entre os fins dos séculos IV com a queda do Império Romano no Ocidente em 476 d. C, até o período da tomada dos Turcos Otomados que dominaram Constantinopla em 29 de maio 1453, a cultura e a sociedade europeia foi sendo constituída e cristalizada pelos pilares dos antigos gregos e romanos juntamente com a interpretação do cristianismo, tendo em vista que a Igreja Católica começou a ganhar espaço justamente com a aceitação e oficialização da religião cristã a partir do Imperador Constantino. Fundamentando-se em passagens bíblicas, como por exemplo, encontramos em Provérbios, 8, 15: “É por mim que reinam os reis e que os príncipes governam a justiça”, entendemos que a lógica do poder estava atrelado aos dois poderes: o Politico e o Divino.
               Maquiavel em sua obra propõe uma visão humanista da realidade politica demonstrando formas de o Príncipe, ou seja , o governante chegar ao poder e manter-se no mesmo, tendo em vista que nem o governante uma vez estando no poder quererá sair de lá, nem mesmo o povo quererá estar sob domínio de um governante se não for favorecido algo benéfico em troca. Aqui, surge uma questão interessante: O que seriamos de nós, por exemplo, se não existissem os governantes? Existiria Leis? Muitos provavelmente diriam que seria melhor pois não haveria corrupção, levando esse termo apenas para o campo da politica, outros iriam contestar dizendo que o simples fato de furarmos uma fila para nos beneficiarmos já é um caso de corrupção. 
                   Enfim, Maquiavel está preocupado em direcionar Lourenzo de Medici ao poder e fazer com que o mesmo reestitua os momentos de glória pelo qual o seu avó obteve em tempos passados.
                Por isso Maquiavel faz uma papel de historiador, mas um historiador aos seus moldes trazendo de volta reflexões dos antigos, como por exemplo, Tito Lívio que descreve os grandes governantes antigos, as suas estratégias para chegar e continuar no poder, como aconteceu com Alexandre o Grande. Então o governante deve obter métodos, como afirmou o filósofo: O primeiro Método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que têm a sua volta", dentre outras afirmativas que direcionam o estado do governante para agir com prudência e sabedoria diante do principado governado, assim como diz Maquiavel: " Ora desejando eu apresentar-me com algum testemunho, que prove a minha admiração por Vossa Magnificência, não encontrei entre meus pertences coisa de maior valia ou que tanto estime, como o conhecimento das ações dos grandes homens(...). Dessa forma em sua análise Maquiavel faz o papel de filósofo ao desnaturalizar aquilo que já era natural para muitos, ou seja, voltar aos antigos ( como um bom renascentista), para poder entender a lógica do poder politico em seu tempo. 
                 Dois termos são utilizados pelo filósofo florentino, a fortuna e a virtú, que são justamente elementos fundantes para que aquele que está no poder deverá continuar ou não no mesmo patamar. O primeiro está relacionado a sorte, acaso, destino da pessoa por na roda da fortuna aqueles que estão hoje fora do poder, poderá amanhã estarem no mesmo. O segundo elemento virtú, não são as virtudes que conhecemos hoje, como por exemplo, as virtudes teologais: fé, esperança e caridade. São virtudes que o príncipe ou o governante deve adquirir de acordo com o contexto em que se vive, sendo que se em uma situação o povo espera um governante sanguinário e destruidor, assim deve ser a postura do mesmo para que não se perca o poder. 
              No presente texto fiz uma atualização me referindo ao sistema de governo que vivemos, a democracia, contudo para Maquiavel só existem duas formas de governo: a república e o principado. Ele dedica a sua obra a Lourenzo II de Medici, lembrando que o Lourenzo I foi um excelente governante, trazendo muitos benefícios para Florença, esse segundo é o neto do primeiro. Maquiavel demonstra como se manter no poder sem ser odiado pelo povo, portanto, o príncipe é um tipo de manual politico. A  lógica do poder é tão interessante, ao observamos que a própria escrita do livro carregava uma intenção sendo que Maquiavel queria voltar ao poder, pois estava preso e exilado quando o escreveu, mas a fortuna ( sorte), não contava com o destino do filósofo que morreu em 1527 na pobreza e longe do poder. 
Caro leitor esperamos você no comentário do próximo livro.Não perca! Ler é o Caminho!

domingo, 14 de janeiro de 2018

História Moderna - É hora de Ler - Livro 2 . 2018

Por Ricardo de Moura Borges.




MICELI, Paulo. História Moderna. São Paulo: Contexto, 2016. 157p. 

           Este livro apresenta em uma linguagem simples e detalhada o processo de formação do período da história conhecido domo Idade Moderna, trazendo em sua introdução um título bem interessante: A Unificação da Terra, onde temos um relato sobre a luta contra a distância e a conquista dos mares do mundo. Classificado como Idade Moderna justamente pelas transformações ocorridas no século XV em diante com o mercantilismo, a religião cristã e o surgimento do protestantismo, as ideias dos renascentistas, dentre outros fatores.
                  Os capítulos estão divididos na seguinte ordem: O estado como obra de poder e arte; o humanismo fora da Itália; Entre religião e ciência; " a fabricação divina do rei; Os senhores do comércio e das financias; A cultura do povo; a Preparação do futuro; marcados por textos apresentados em boxes que complementam a reflexão do historiador. 
              Com curiosidades e perspectivas marcadas com uma reflexão de cunho autônomo do historiador atribui-se a esse elemento a riqueza do texto, fazendo da leitura agradável. A idade Moderna associada ao Renascimento e as grandes navegações, com feitos épicos marcaram com a unificação de pontos distantes da Europa. Assim, como delimita-se o início da Idade Média, com a queda do Império Romano no Ocidente e seu fim com a tomada de Constantinopla pelos turcos, em 29 de maio de 1453 e seu fim marcado pela idade Contemporânea com a deflagração da Revolução Francesa em 14 de julho de 1789 inicia-se a Idade Contemporânea. 
              Curiosidades como por exemplo, a origem da palavra século p.11 " a palavra século latina saeculum era aplicada pelos Romanos a períodos de duração variável, ligada a muitas vezes à ideia de uma geração humana. Os cristãos, embora conservassem na sua antiga acepção, conferiam o sentido derivado da vida humana, vida terrena, em oposição ao além", apresentam uma contextualização aos discursos apresentados enriquecendo o texto e provocando clarificação ao esclarecer determinados termos, portanto, como continua " Mas no século XVI, certos historiadores e eruditos tiveram a ideia de dividir os tempos em porções  de cem anos. A unidade era bastante longa, a cifra 100 simples, a palavra conservava o prestígio do termo latino, e levou algum tempo a impor-se. Aqui é apresentado pelo historiador Jacques Le Goff no Enciclopédia Einaudi no texto " Calendário, onde " o primeiro século em que verdadeiramente se aplicaram o conceito e a palavra foi no século XVIII: a partir daí, esta cômoda noção abstrata ia impor a sua tirania à história". Outros historiadores também são apresentados como Julio Michelet ( 1798 - 1874), que p. 33 " usou pela primeira vez o termo Renascimento para nomear o vasto movimento que resultou na descoberta do mundo e do homem, dedicando o tema sétimo volume de sua monumental História da França".
              Termos como Anões em Ombros de Gigantes que na época do renascimento se fazia entender que eram os modernos ao se debruçarem nos textos dos antigos como Platão e Aristóteles, por exemplo, são discutidos também por aqueles que não aceitavam tal ideia, como p. " O humanista espanhol Juan Luís Vives (  1492 - 1540 ), condenou essa classificação, afirmando que nem os homens de seu tempo eram anões, nem os antigos eram gigantes. Ao contrário, os homens do século XVI, graças aos antigos, seriam até mais cultos". 
              No tópico O Estado como obra de Poder e Arte encontramos um dos períodos mais conhecidos em sala de aula, principalmente quando trabalhado nas aulas de filosofia onde percebemos o nascimento de uma Obra que marca o pensamento politico no Ocidente, a saber: O Príncipe de Maquiavel. Aqui o autor intitula Maquiavel e o poder do Príncipe justamente escrevendo sobre a lógica do poder em tempos tão difíceis para a cidade de Florença. Interessante que o olhar muda por exemplo quando percebemos como outros autores veem a obra, por exemplo, na p. 39 " Rousseau em uma nota ao Contrato Social, ponderou que Maquiavel era um homem ' bom e honesto ' amante da liberdade, mas não podia expressar esse sentimento devido à proximidade com os Médici".
            Por outros historiadores e sociólogos como Zigmunt Bauman vivemos na Era Pós Moderna. Qual será o próximo período da História depois do nosso? Na verdade todas as pessoas na humanidade viviam na Idade Contemporânea, ou seja, se voltássemos no tempo jamais um camponês de um feudo ou um grego antigo diriam que estariam morando na Idade Média ou Idade Antiga, mas sim na sua contemporaneidade. Dessa forma a história, o historiador demarca esses tempos, para melhor qualificar épocas de transformações sociais, econômicas, politicas, religiosas de uma determinada época espaço temporal, colocando assim um olhar sobre determinado período. 
               Caro leitor não perca as reflexões do próximo livro. Ler é o caminho!

História Medieval no Ocidente - É hora de Ler - Livro 1 - 2018


Por: Ricardo de Moura Borges.


CALAINHO, Daniela Buono. História Medieval do Ocidente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. 124 p. 

          Nesta série apresento ao leitor os livros que li no ano de 2018 com a finalidade de compartilhar o conhecimento a partir de resenhas criticas de livros que marcaram o meu processo histórico formativo. Pois bem, o primeiro livro lido em 2018 foi História Medieval do Ocidente da historiadora Daniela Buono Calainho onde apresento a referencia bibliografia logo acima do texto. Apresenta uma leitura simples e contextualizada com imagens, mapas e reflexões bem pertinentes para contextualizar o período.
        Encontramos nas páginas inciais uma reflexão interessante sobre o conceito de Idade Média que foi construída com interesses de descaracterizar um período rico da história da humanidade marcado pela queda o Império Romano no Ocidente, e com a força da cristandade no Ocidente fazendo-se forte a presença da mentalidade cristã para entendimento da sociedade, onde " A Idade Média foi considerada, então como Idade das Trevas, a exemplo do poeta italiano Francesco Petrarca ( 1304-1374), que se referiu ao período como tenebrae (sombra, escuridão)."
         Esse período da história dividido pelos historiadores em dois momentos A Alta Idade Média (séculos V a X), onde encontramos os povos Germânicos no Ocidente; Os Francos Merovíngios e carolíngios e a Igreja na Alta Idade Média que vai ganhando destaque e poder nesse período; e Baixa Idade Média  ( séculos X e XIV), onde a historiadora se debruça sobre temas como: Os historiadores e o feudalismo, onde não necessariamente falar de feudalismo está atrelado a Idade Média mas a um período, como salienta p.13 " a de que a Idade Média não é sinônimo de feudalismo, ou seja, este termo vai ter um significado específico que marcou uma fase de Baixa Idade Média". A distinção da sociedade feudal e as monarquias feudais; o crescimento demográfico e estrutura agrária no Ocidente Medieval; A expansão do comércio e as cidades no Ocidente Europeu; O papel da Igreja no Ocidente medieval e por fim, a crise do século XIV e Início da Idade Moderna com a caracterização do renascimento Europeu. 
             O artista Rafael de Sanzio ( 1483 - 1520) caracterizou a arte medieval como gótico, termo que tem o sinônimo de bárbaro, tendo em vista que pelos modernos essa Idade Média foi percebida como " época de grande fanatismo religioso, ignorância e estagnação econômica", também conhecida como a " longa noite de mil anos". 
         O livro marca a perspectiva dos historiadores pós escola dos annales analisando diferentes perspectivas da história sem caracteriza-la no sentido de rotula-la, mas levando o leitor a pensar e refletir sobre esse período da história, por isso desde as páginas introdutórias marca uma reflexão importante sobre o próprio termo construído por pensadores do século XV em diante. 
             Caro leitor não perca as reflexões dos próximo livro! Ler é o caminho!