domingo, 18 de outubro de 2015

A Invenção do 19 de Outubro – Dia do Piauí


Texto: Ricardo de Moura Borges - Professor de Filosofia e Artes.

           A representação do cotidiano é dada pela percepção daquele que observa e este tem o poder de transmitir para os demais. É como um quadro que foi desenhado por um artista, para ele há um significado na obra e uma beleza, bastante expressiva, na sua arte. Algumas pessoas conseguem enxergar, assim como artista, mas muitos não conseguem. Então, chegamos à ideia de que, existem pessoas que aceitam a realidade tal qual está no quadro, já outros, desconsideram e a ponderam levando em consideração sua riqueza, mas destacando a possibilidade de outras formas de representação do real. Diante desse fato, acreditamos que homem contemporâneo olha para um acontecimento passado com os olhos do hoje. Assim destaca Certeau:

O cotidiano é aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão do presente. Todo dia, pela manhã, aquilo que assumimos, ao despertar, é o peso da vida, a dificuldade de viver, ou de viver nesta ou noutra condição, com esta fadiga, com este desejo. O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. É uma história a meio de nós mesmos, quase em retirada, às vezes velada. Não se deve esquecer este “mundo memória”, segundo a expressão de Péguy. É um mundo que amamos profundamente, memória olfativa, memória dos lugares da infância, memória do corpo, dos gestos da infância, dos prazeres. Talvez não seja inútil sublinhar a importância do domínio desta história "irracional” ou desta “não-história”, como o diz ainda A. Dupront. O que interessa ao historiador do cotidiano é o invisível.. ( Certeau 1996,p.31).
           
           Assim o espaço da memória destacada pelo autor tem significado importante tanto para quem constrói a narrativa histórica de um determinado acontecimento, como para aqueles que recebem tal informação e começam a fazer parte da memória coletiva. Então, se a construção do Piauí é dada por um tempo e um espaço e este é marcado pela memória daqueles que viveram em tal lugar, cabe destacar a necessidade de uma construção cultural. Sendo assim, é fundamental enfatizarmos, que não apenas os estereótipos de pobreza, seca e miséria sejam destacados, mas também a sua construção como identidade fundante, não apenas pela economia, cultura e política; mas também marcado de um espaço de poder e linguagem. Assim destaca Durval Muniz:

O Nordeste não é um fato inerte na natureza. Não está dado desde sempre. Os recortes geográficos, as regiões são fatos humanos, são pedaços de história, magma de enfrentamentos que se cristalizaram, são ilusórios ancoradouros da lava da luta social que um dia veio à tona e escorreu sobre este território. O Nordeste é uma espacialidade fundada historicamente, originada por uma tradição de pensamento, uma imagística e textos que lhe deram realidade e presença. (ALBUQUEQUE, 2011, p.79).
           
            A característica mais difundida do homem nordestino é que ele é rústico, pobre e miserável, vendendo em um lugar, castigado pela seca.  É o que vemos diariamente na mídia, quando se refere as cidades nordestinas. Faltando muitas vezes, por parte da mídia, uma investigação mais precisa, de como o povo nordestino é trabalhador e guerreiro, e nossas cidades são repletas de belezas.
           A identidade piauiense e dos demais nordestinos possui algumas diferenças. A assertiva do autor ao destacar o poder e a linguagem para a construção do nordeste marca também a construção do Piauí, mas é necessário destacar que cada um possui suas peculiaridades inerentes. As regiões piauienses são diversificadas, cabendo destacar, por exemplo, a região de Picos, onde existe abundância em água e de ótima qualidade, que confirma, a tese de que nem todos os municípios do nordeste, sofrem pela falta de água. Outro exemplo é a cidade de Paulistana que até hoje sofre com falta de água para abastecimento da cidade e de lugares vizinhos.
            O grande problema é que existe um reducionismo que destaca o nascimento do nordeste a partir da seca. Assim destaca Albuquerque:

Desde o início de seu emprego, o termo “Nordeste” esteve fortemente relacionado com o fenômeno das secas. Albuquerque Jr. chega a afirmar que: 48 o Nordeste é, em grande medida, filho das secas; produto imagético discursivo de toda uma série de imagens e textos, produzidos a respeito deste fenômeno, desde que a grande seca de 1877 veio colocá-la como problema mais importante desta área. (ALBUQUERQUE JR., 2011, p. 68)

            Todos os anos é comemorado o dia do Piauí, no dia 19 de outubro e por diversas razões acaba sendo mais um feriado do qual aproveitamos em casa, sendo que muitos  não sabem o significado da data. Essa data é significativa para relembramos o processo de Independência do Piauí. Ao recordar o dia 7 de setembro de 1822, onde houve a Proclamação da Independência do Brasil, devemos levar em conta, que um mês depois, no dia 19 de Outubro na cidade de Parnaíba no Piauí, estava sendo proclamada a Independência desse Estado.
            Assim, notamos que a Independência mostrou-se em um movimento comandado por aqueles que tinham mais recursos, ou seja, a elite. Com a composição social da época, a massa popular urbana e rural apesar do heroísmo de alguns enfrentamentos e batalhas como por exemplo, a Batalha do Jenipapo em 1823, não estavam presentes na composição do governo ascendente da época.

A própria Independência de 1822 – embora contivesse em si o potencial de um movimento social de envergadura – ao deixar intacta a escravidão e a estrutura fundiária latifundista, de um lado, e por se valer da hipertrofia burocrática acarretada pela transferência da corte portuguesa para o Brasil, de outro, manteve a sociedade brasileira como “sociedade de poucos cidadãos” e conferiu ao novo Estado nacional – e imperial – o mesmo caráter de um Estado bastante descolado e sobreposto à sociedade. (MEDEIROS, 1995: 163).
           
           Vale destacar que a Balaiada, revolta popular ocorrida no Maranhão entre os anos de 1838 e 1841, teve como iniciativa lutar pelos interesses dos menos favorecidos, contudo foi sufocada pelo então governador da província Manoel de Sousa Martins, que procura recursos de diversos setores para combater a Balaiada. Assim confirma Bonfim:

A Balaiada representará os interesses marginalizados da sociedade imperial da época, lutando contra o domínio do latifúndio em busca de mudanças na estrutura fundiária das Províncias. Sua marca fundamental foi a grande violência das lutas, onde foram devastados os rebanhos, as vilas e as benfeitorias das fazendas da região. (BONFIM, 1995: 46).
           
            Apenas no dia 30 de agosto do ano de 1937, é que o dia 19 de Outubro, passou a ser feriado, através do projeto de lei, número 176, apresentada pelo deputado José Auto de Abreu. Que está apresentada assim:

Artigo 1º --- 19 de Outubro será feriado estadual.
Artigo 2º --- Nesta data anualmente serão promovidas comemorações cívicas nos estabelecimentos de ensino e nos centros culturais do Estado com a colaboração do governo.
Artigo 3º--- revogam-se as disposições em contrário. Publique-se e cumpra-se como lei do Estado. Afrísio Lobão Veras Filho --- governador em exercício.
           
            A importância do dia 19 de Outubro é algo que muitas vezes é esquecida pelo próprio povo piauiense. É necessário não apenas um estudo sobre tal data, mais a construção de uma problematização, ao redor do fato histórico, para podermos entender como foi constituída, construída e formada, para assim conhecermos nossas origens. Por outro lado, cabe enfatizarmos que esta data é contestada por aqueles que defendem a Batalha do Jenipapo como o “Grande” acontecimento em defesa da independência do Piauí sendo uma Batalha de importante relevância para a história da identidade do povo piauiense. Assim ficou o projeto de lei 38, de 26 de maio de 2008, que estabelece:

Art. 1 Fica instituído como feriado estadual o 13 de março data comemorativa da Batalha do Jenipapo.
Art. 2 Esta lei entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.
           
          Dessa forma percebemos que a história não é neutra e tem sua intencionalidade, primeiro construída em cunho positivista por aqueles que detinham tanto o “conhecimento”, mas os recursos elitistas para se dizer o que deveria ser contado e depois uma história problematizadora que destaca outras perspectivas de um determinado fato. Assim a história do Piauí, carrega uma linguagem de poder em sua construção, mostrando um mar aberto para outros olhares.


Bibliografia
ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez. 2011.
BONFIM, Washigton Luís de Sousa. Formação Política. In: Piauí: Formação – Desenvolvimento – Perspectiva. Halley, Teresina, 1995.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1, Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.
Lei nº 176. Dia do Piauí. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/participe/cultura-na-camara/exposicoes-2014/copy_of_arquivos/batalha-do-jenipapo/view. Acessado em: 10 de outubro de 2015.
MEDEIROS, Antônio José. Movimentos Sociais. In: Piauí: Formação – Desenvolvimento – Perspectiva. Teresina:Halley, 1995.
Projeto de lei 38 de 26 de maio de 2008. Disponivel em: http://servleg.al.pi.gov.br:9080/ALEPI/sapl_documentos/materia/5195_texto_integral. Acessado em 09 de outubro de 2015.

Imagem disponível em: http://imagens.us/datas/dia-do-piaui/index.php?imagem=dia-do-piaui%20(1).jpg

sábado, 17 de outubro de 2015

Motivação para Estudar


Homenagem para o 15 de Outubro

Imagine ser surpreendido na rua, por uma equipe de filmagem, com um depoimento sobre como você marcou a vida de um professor: foi assim que a FTD Educação decidiu homenagear os educadores neste 15 de outubro, com o vídeo “Professores Pensam Além”. 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A Filosofia em The Fault in Our Stars

          


           Nunca se falou tanto em filosofia como no século XXI. Talvez seja até exagero, mas parece até que as pessoas respiram filosofia, pois ela está na televisão, nos jornais, no campo e na cidade, em livros, em filmes, enfim, a filosofia está em tudo. É impressionante como percebemos o desinteresse dos jovens por leituras acadêmicas ou de contos mais antigos, contudo é inegável a presença de uma nova literatura que surge com força e permeia a juventude, cabe a destacar o livro que inspirou a criação do filme: The Fault in Our Stars, ou A Culpa é das Estrelas de John Green, autor norte americano.
            Podemos perceber uma filosofia existencialista em todo o desenrolar e finalização da trama em questão. O câncer é tido hoje como a doença do século, pois está presente de forma assustadora em diversos lugares de todo o mundo. Perceber que essa doença pode abreviar a vida de uma pessoa é angustiante, mais ainda, saber que são de pessoas jovens, que possuem ainda a energia vital para amadurecer e envelhecer torna-se ainda mais sofrível, tanto para aqueles que vivenciam tal mal, como para aqueles que acompanham tal acontecimento inesperado.
            Assim, os personagens ganham força ao demonstrarem sua fragilidade, primeiro notamos Hazel Grace uma adolescente de 16 anos que sofre desde os 13 anos de idade com um câncer de tireoide, e por querer evitar maior sofrimento com as pessoas que a cercam, decide viver em um mundo com a família, com seus livros, livros e dividindo experiências em um grupo de apoio para adolescentes com câncer, onde ela tem a oportunidade de conhecer diversas outras histórias de pessoas que passam por problemas semelhantes.
            Nessa perspectiva existencialista, percebemos o grande destaque da finitude das coisas e um grande questionar filosófico: Qual o sentido da vida? Albert Camus filósofo existencialista já ressalta que a vida não tem sentido, cabe a cada ser humano dar sentido a sua existência. Assim afirma Camus que os conteúdos filosóficos devem ser acessíveis a todos os homens e que devem ser práticos e impulsionam ações, ou seja, que põe em questão o nosso próprio existir. De tal maneira argumenta Camus sobre o suicídio:
Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo.

Contudo, achamos duas saídas para a conclusão do filósofo na obra “The Faut In Ours Stars”, primeiro que no grupo que os adolescentes frequentam tem como o centro uma busca para as verdades eternas do cristianismo, no centro está Jesus, que tudo pode e que garante um lugar de alívio para as dores e cura para os doentes, dá um outro  sentido terreno para a vida é encontrando quando a jovem encontra Augustus Waters um jovem de quase 18 anos de idade, ex-jogador de basquete  e que devido um problema de osteosarcoma (tumor maligno nos ossos que se propaga para os demais órgãos), teve que amputar uma de suas pernas. Jovem que enfrenta uma doença grave com humor e que se encanta com a adolescente Hazel Grace.
Uma amante de livros e um amante de jogos encontram um sentido para a vida, ou seja, encontram forças não para vencer o câncer para lutarem até os últimos instantes de existência. Daqui, surge outra inquietação filosófica já pensada por Heidegger ao propor que o ser humano é um ser para a morte. Assim essa necessidade de não ficar só no mundo pois como afirma Heidegger:

[...]‘estamos suspenso’ na angustia... a angústia nos suspende porque ela põe em fuga o ente em sua totalidade. Nisto consiste o fato de nós próprios, os homens que somos, refugiarmo-nos no seio dos entes. É por isso que, em última análise não sou ‘eu’ ou não és ‘tu’ que se sente estranho mas a gente se sente assim. Somente continua presente o puro ser-ai no estremecimento deste estar suspenso onde não há em que apoiar-se. (HEIDEGGER, 1973 p.277).
           
Dessa forma essa angústia é dilacerante no homem em questão, contudo Heidegger não está falando de pessoas com câncer, mas de todo ser humano que vive sua vida mesmo com saúde em uma angústia, pois não está em sua casa, está em constante mudança e passagem. Como já afirmava o filósofo Pré-Socrático, Heráclito de Éfeso, que “todas as coisas são passageiras e estamos em constante mudança”, assim Heidegger afirma que existe uma constante preocupação interna no homem e essa lhe causa angústia. Mas nossos personagens na obra antecipam essa angústia, pois agora impulsionados por um câncer que lhes atormenta existe uma antecipação acelerada da finitude no mundo.
            Preocupado com isso o jovem Augustus Waters está preocupado em ser lembrado depois que morrer, e descobre no decorrer da trama que em pequenas atitudes, gestos, palavras é que para sua família e entes queridos que sua “imortalidade” prevalecerá na mente daqueles que vivem. Como bem salienta a própria jovem Hazel Grace. Assim também aconteceu com as grandes personalidades da História como Aristóteles, os faraós do Egito, os imperadores Romanos e Napoleão poderão ser lembrados para sempre, e só poderão ser esquecidos com o fim da humanidade. Interessante que essa observação é pertinente para o historiador também, porque, este agora munido dos instrumentos para “construir” a história pode também “desconstruir” a história que há muito tempo foi repassada, agora levando em consideração a veracidade dos documentos escritos, e outras fontes que eram até então desconsideradas pelos antigos historiadores. Percebemos que as fontes agora, são artefatos que desenvolvidos em uma cultura e construídos nesta, não são neutros e passam a ter uma intencionalidade pelos grupos que lhe deram origem. Dessa forma afirma Marc Bloc: “Tudo o que o homem diz ou escreve, tudo que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar sobre ele” ( BLOCH, 2001,p.79).
            É assim que o jovem Augustus e a jovem Hazel Grace vai produzindo a sua história, modificando os meios relacionais e mostrando saídas para amenizar seu momento de dor, diante de uma grave doença, até chegar a finitude de seus dias. De certo que a história que ficará não é daquele que a construiu em questão no seu dia a dia, mas daquele terceiro agente que é incumbido de contar a história para os demais e deixar assim também a sua marca no tempo e espaço.
            Uma doença degenerativa que antecipa a morte, daqueles que lutam em busca da felicidade em uma vida onde o homem em seu dia a dia busca sentido para vivê-la. Nessa antecipação à conclusão do filósofo Heidegger de que somos seres para a morte se faz como verdadeira. Assim ele nos diz:
A questão da constituição ontológica de ‘fim’ e ‘totalidade’, obriga a tarefa de uma análise positiva dos fenômenos da existência até aqui postergados. No centro destas considerações, acha-se a caracterização ontológica do ser-para-o-fim em sentido próprio da presença e a conquista de um conceito existencial da morte. (HEIDEGGER, 1997, p. 17)

            Diante disso, percebemos que a presente obra que ganhou a admiração de tantos jovens é uma atualização presente do pensamento dos filósofos existencialistas, que envoltos em sua época, já pensavam na finitude da vida, e colocaram os sujeitos históricos em perspectiva de existência e constante busca para entender sempre mais o existir. Contudo, assim como na obra que fatos são elencados a partir de uma visão de mundo, chegando à sensibilidade de perceber como, por exemplo, que uma casa de tijolos pode ser mais que uma simples casa, onde guarda uma memória e uma vivência, principalmente, para aqueles que conviveram nela. Essa obra nos faz refletir sobre a literatura que nossos jovens estão lendo na atualidade.
           
Referências
BLOCH, Marc. Apologia da História ou oficio do historiador. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.
GREEN, John. A Culpa é das Estrelas. Intrínseca Editora, 2012.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Trad. Márcia de Sá Cavalcante. 3ª Ed. Petrópolis RJ: Vozes, 1997.
_________________. Que é Metafísica. Tradução de Ernildo Estein. Abril cultural. São Paulo: 1973. (os pensadores)

Ricardo de Moura Borges - Professor de Filosofia e Artes.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Contato, Genocídio e Resistências na América Latina - História em Perspectiva

Contato, Genocídio e Resistências na América Latina


                                                                                                Ricardo de Moura Borges[1]

          O presente texto fará uma reflexão sobre a primeira parte do livro “As veias abertas da América Latina” de Eduardo Galeano, aonde o mesmo apresenta como o continente americano foi explorado pelos Europeus após a descoberta em 1492 e que depois de três anos após o descobrimento, Cristóvão Colombo organizou uma campanha militar que matou milhares de índios da Ilha Dominicana, e alguns dos que sobraram, acabaram sendo vendidos como escravos. Além da crueldade dos Europeus contra os escravos, na qual produziu genocídios na sociedade, bem como exploração dos seres humanos e precárias condições de vida.  Sendo que a ocupação dos Europeus era uma espécie de junção da propagação da fé cristã e a busca por riquezas nativas. Porém buscaremos nesse texto apresentar também uma analise da obra de Tzvetan Todorov: “A conquista da América. A questão do outro” capitulo III, obra que apresenta a relação do “Eu com o Outro”, e que é manifestada através da ideia de grupo social, enfatizando o encontro dos Espanhóis com os indígenas, bem como o posicionamento de outros autores.
            De ante disso, Vespúcio (2003, p.175) em uma de suas cartas enviadas a Lorenzo de Medici afirma que:
Não tem lei, nem fé nenhuma. E vivem segundo a natureza. Não conhecem a imortalidade da Alma, não têm, entre ele bens próprios, porque tudo é comum: não têm limites de Reinos, e de Províncias; não têm Rei; não obedecem a ninguém. Cada um é senhor de si; nem favor , nem graça a qual não lhes é necessária, porque não reina entre eles a cobiça: moram em comum em casas feitas à moda de cabanas muito grandes, e para gente que não têm ferro, nem outro metal qualquer, se pode dizer que suas cabanas, ou casas maravilhosas, porque eu vi casas que são longas 220 passos, e larguras 30, e habilmente fabricadas, e numa destas casas estavam 500, ou 600 almas.(...). As suas comidas raízes de ervas e frutas muito boas, inúmeros peixes, grande abundancia de mariscos e caranguejos, ostras, lagostas e camarões, e muitas outras coisas que produz o mar.

          A América é uma grandiosa região onde no passado foi moradia para importantes civilizações que pode facilmente ser comparadas com outras da Eurásia e da África que se desenvolveram na mesma época. Para os europeus essas civilizações eram consideradas barbaras, pois não seguiam os costumes e as tradições europeias. Dentre esses povos se destacam: Maias, Incas e Astecas, e outros que se podem caracterizar como nômades e seminômades. Essas sociedades se diferenciaram em diversos aspectos culturais, porém o que tiveram em comum foi às atrocidades sofridas, executadas pelos europeus, que praticaram maus tratos e trouxeram doenças, dizimando quase por completo essas civilizações. Porém, tais maldades ocorridas nas novas terras, podem ultrapassar o número de mortes advindo dos intensos e duradouros embates travados dentro do processo de transformações sociais acontecidos no século XX.
        Porém, merece destaque neste trabalho o “Canto triste asteca” que revela a visão indígena da conquista, Pinsky (1989, p.29-30):


Nos caminhos jazem dardos quebrados; os cabelos estão espalhados. Destelhadas estão as casas, incandescentes estão seus muros. Vermes abundam por ruas e praças, e as paredes estão manchadas de miolos arrebentados. Vermelhas estão as águas como se alguém as tivesse tingindo, e se as bebíamos, eram água de salitre. Golpeávamos os muros de adobe em nossa ansiedade e nos restava por herança uma rede de buracos. Nos escudos esteve nosso resguardo, mas os escudos não detêm a desolação(...).


           No primeiro livro a ser analisado, o autor Galeano (2010, p.10) apresenta com clareza toda a essência da sua obra, que foi a descoberta da América e aponta com clareza o genocídio que houve na América para beneficiar o crescimento dos países Europeus envolvidos nas Grandes Navegações.
              
A divisão internacional do trabalho significa que alguns países se especializam em ganhar e outros em perder. Nossa comarca no mundo, que hoje chamamos América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se aventuraram pelos mares e lhe cravaram os dentes na garganta. Passaram-se os séculos e a América Latina aprimorou suas funções. Ela já não é o reino das maravilhas em que a realidade superava a fábula e a imaginação era humilhada pelos troféus da conquista, as jazidas de ouro e as montanhas de prata. (...) É a América Latina, a região das veias abertas. Do descobrimento aos nossos dias, tudo sempre se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal se acumulou e se acumula nos distantes centros do poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos.
          
          Quando os Europeus chegaram à América e perceberam que na terra já havia habitantes, “o homem branco” transformou a vida dos nativos em um caos. Pois os mesmos foram surpreendidos pela violência física, moral e psicológica.  Muitos desses se suicidavam, outros se renderam a dominação Europeia sendo explorados e obrigados a deixar suas crenças religiosas e aceitar a imposição europeia de que era preciso ser civilizado e para isso acontecer, deveria se seguir o catolicismo, “A Espada e a cruz marchavam juntas na conquista e no butim colonial” Galeano (2010, p. 40).
            Segundo Montaingne (1984,p.25):

(...) não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos; e, na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra. (.) Não me parece excessivo julgar bárbaros tais atos de crueldade [o canibalismo] , mas que o fato de condenar tais defeitos não nos leve à cegueira acerca dos nossos. Estimo que é mais bárbaro comer um homem vivo do que o comer depois de morto; e é pior esquartejar um homem entre suplícios e tormentos e o queimar aos poucos, ou entregá-lo a cães e porcos, a pretexto de devoção e fé, como não somente o lemos mas vimos ocorrer entre vizinhos nossos conterrâneos; e isso em verdade é bem mais grave do que assar e comer um homem previamente executado. (...) Podemos portanto qualificar esses povos como bárbaros em dando apenas ouvidos à inteligência, mas nunca se compararmos a nós mesmos, que os excedemos em toda sorte de barbaridades.

          Os Europeus se destacaram pela sua crueldade perante os indígenas, sendo que há poucos registros que enfatizam esse massacre, porém Las Casas (1985, p. 40) afirma que:

Os espanhóis, com seus cavalos, suas espadas e lanças começaram a praticar crueldades estranhas; entravam nas vilas, burgos e aldeias, não poupando nem as crianças e os homens velhos, nem as mulheres grávidas e parturientes e lhes abriam o ventre e as faziam em pedaços como se estivessem golpeando cordeiros fechados em seu redil. Faziam
apostas sobre quem, de um só golpe de espada, fenderia e abriria um homem pela metade, ou quem, mais habilmente e mais destramente, de um só golpe lhe cortaria a cabeça, ou ainda sobre quem abriria as entranhas de um homem de um só golpe. Arrancavam os filhos dos seios da mãe e lhes esfregavam a cabeça contra os rochedos [...] Faziam certas forcas longas e baixas, de modo que os pés tocavam quase a terra, um para cada treze, em honra e reverência de Nosso Senhor e de seus doze Apóstolos (como diziam) e deitando-lhes fogo, queimavam vivos todos os que ali estavam presos. Outros, a quem quiseram deixar vivos, cortaram-lhes as duas mãos e assim os deixavam.

             
             Por tanto, é evidente que a luta era desigual entre índios e Europeus, pois os Europeus levavam vantagem militar nos confrontos, mas a superioridade de armamentos Europeus não pode justificar sua superioridade sobre os indígenas, pois estes eram superiores em quantidade, perante aqueles.  Porém, deve-se levar em conta outro elemento bastante significativo na destruição dos povos indígenas: as doenças contagiosas trazidas pelos povos Europeus, pois grande parte morreu vítima de doenças, como sarampo, tifo, coqueluche, varíola e gripe. Essas doenças eram letais para os nativos que não possuíam resistência imunológica contra elas. Com isso, a população de índios, foi bastante reduzida ao longo dos anos.
           Assim Galeano (2010, p.41) aponta que:
          
A economia colonial latino-americana valeu-se da maior concentração de força de trabalho até então conhecida, para tornar possível a maior concentração de riqueza com que jamais contou qualquer civilização na história mundial. Aquela violenta maré de cobiça, horror e bravura não se abateu sobre essas comarcas senão ao preço do genocídio nativo: investigações recentes melhor fundamentadas atribuem ao México pré-colombiano uma população que oscila entre 25 e 30 milhões, e se calcula que havia um número parecido de índios na região andina; na América Central e nas Antilhas, entre dez e treze milhões de habitantes. Os índios das Américas somavam não menos do que 70 milhões, ou talvez mais, quando os conquistadores estrangeiros apareceram no horizonte; um século e meio depois estavam reduzidos tão só a 3,5 milhões.


          No início, após o descobrimento, os principais interesses dos Europeus era busca por metais, tudo que foi encontrado na América, era repassado para Europa, particularmente foi encontrada a prata, em Potosí (Bolívia) e o ouro, na cidade de Ouro Preto, Minas Gerais (Brasil). “Francisco Tavares de Brito, em 1732 definia Ouro Preto como “a Potosí de ouro (...)”, “Minas Gerais entrou assim, impetuosamente, na história: a maior quantidade de ouro então descoberta no mundo foi extraída no menor espaço de tempo” Galeano (2010, p.53-54). Por causa desse interesse a maioria dos índios foram os primeiros a serem escravizados pelos Europeus.  Segundo Boris Fausto, (1996, p.20):


É difícil analisar a sociedade e os costumes indígenas, porque se lida com povos de cultura muito diferente da nossa e sobre a qual existiram e ainda existem fortes preconceitos. Isso se reflete, em maior ou menor grau, nos relatos escritos por cronistas, viajantes e padres, especialmente jesuítas. Existe nesses relatos uma diferenciação entre índios com qualidades positivas e índios com qualidades negativas, de acordo com maior ou menor grau de resistência oposto aos portugueses. Por exemplo, os aimorés, que se destacaram pela eficiência militar e pela rebeldia, foram sempre apresentados de forma desfavorável. De acordo com os mesmos relatos, em geral, os índios viviam em casas, mas os aimorés viviam como animais na floresta. Os tupinambás comiam os inimigos por vingança; os aimorés, porque apreciavam carne humana. Quando a Coroa publicou a primeira lei em que se proibia a escravização dos índios (1570), só os aimorés foram especificamente excluídos da proibição.

            Diante disso, é notório o interesse da Coroa Portuguesa em dizimar os povos que habitavam o Brasil no inicio dos anos de 1500, seno que alguns tentaram resistir à dominação europeia, mas eram impiedosamente perseguidos. Porém, é importante destacar que diferente da América hispânica, o Brasil não possuía civilizações indígenas organizadas, apenas grupos selvagens que não conheciam os metais preciosos tão desejados pelos Europeus, então estes exterminaram diversos indígenas brasileiros para conseguirem descobrir os lugares onde havia aluviões de ouro no território.
          Segundo Galeano, (2010, p. 42)


Em três séculos, a montanha rica de Potosí apagou, segundo Josiah Conder, 8 milhões de vidas. Os índios eram arrancados das comunidades agrícolas e, com a mulher e os filhos, impelidos rumo à montanha. De cada dez que eram levados para os altos paramos gelados, sete jamais voltavam. Luis Capoche, que era dono de minas e de engenhos, escreveu que
“estavam os caminhos tão povoados que parecia que o reino inteiro ia embora”. Nas comunidades, os indígenas tinham visto “voltar muitas mulheres aflitas, sem seus maridos, e muitos filhos órfãos, sem seus pais” e sabiam que na mina os esperava “mil mortes e desastres”.

         
         Havia nas colônias recém-descobertas a propagação da fé cristã a todos os povos nativos, diante disso, muitos indígenas receberam a proteção dos padres jesuítas que se instalaram nas colônias da América a fim de catequizar as tribos indígenas, transformando eles em homens civilizados a qualquer custo, assim era feito de tudo para atingir esse objetivo. Porem aqueles índios que se negavam a dominação jesuítica de catequização eram perseguidos pelos tribunais de inquisição que era um tipo de processo punitivo contra as pessoas acusadas de crime contra a fé cristã.
          Assim afirma Silva Filho (2003, p. 291):

Se o assassinato religioso foi um sacrifício, o massacre foi um assassinato ateu, inventado ou reinventado pelos espanhóis. As fogueiras da inquisição parecem-se mais com os sacrifícios. Certamente, os massacres são uma marca registrada da modernidade: ‘A barbárie dos espanhóis nada tem de atávico, ou de animal, é bem humana e anuncia a chegada dos tempos modernos.

          Porém era necessária uma mão de obra barata para desenvolverem e explorarem as terras em busca de metais preciosos foi então que houve o comercio de escravos africanos para trabalhar nas colônias, os mesmos eram trazidos através do sistema de tráfico negreiro, um comércio escravista realizado pelos Europeus desde o século XVI, que reunia interesse de grupos escravistas da África, Europa e América, que necessitavam da mão de obra escravista para trabalhar nas lavouras, nas minas e em todo processo de exploração das colônias.
           Assim afirma Galeano (2010, p. 55)


Os escravos gastavam suas forças e seus dias nas lavagens do ouro. “Ali trabalham, ali comem”, escrevia Luis Gomes Ferreira, “e ali, geralmente, tem de dormir; e como ao trabalhar ficam banhados de suor enquanto os pés se esfriam nas pedras ou na água, quando descansam ou comem seus poros se fecham e congelam de tal forma que eles se tornam vulneráveis a muitas enfermidades perigosas, como as bem severas pleurisia, apoplexia, convulsões, paralisia, pneumonia e muitas outras.” A doença era uma bênção do céu que aproximava a morte. Os capitães de mato recebiam recompensas em ouro por cada cabeça cortada de escravo fugitivo.
         
          Os escravos africanos eram chamados de “peças das Índias” Coltrim (2013,p.266), pois eram pesados e medidos, sendo que no Brasil, eram considerados os pés e as mãos do homem branco. Em Minas Gerais vinham negros de Whydah, uma pequena praia da Costa do Guiné, pois eram considerados os tipos mais habilidosos para descobrirem ouro.
          É importante destacar que boa parte dos metais explorados na América Latina servia para enriquecer os países Europeus envolvidos no processo de expansão colonial, que desejam a qualquer custo enriquecer seus territórios. “A América era um negócio europeu” Galeano (2010, p. 45). Os colonizadores que vieram explorar as terras, ficavam com valores insignificantes e se desfaziam desses lucros facilmente, pois não havia ideia de progresso dentro das colônias. Galeano (2010, p. 41), aponta que o desejo por metais preciosos foi o que motivou o genocídio ocorrido na América.

A prata e o ouro da América, no dizer de Engels, penetraram como um ácido corrosivo em todos os poros da moribunda sociedade feudal na Europa, e ao serviço do nascente mercantilismo capitalista os empresários mineiros converteram indígenas e escravos negros num multitudinário “proletariado externo” da economia europeia. A escravidão greco-romana ressuscitava nos fatos, num mundo distinto; ao infortúnio dos indígenas dos impérios aniquilados na América hispânica deve-se somar o terrível destino dos negros arrebatados às aldeias africanas para trabalhar no Brasil e nas Antilhas.
        
          O autor enfatiza que na divisa de Lima e Prata aonde viveram mais de dois milhões de índios, o aniquilamento da população indígena foi quase 100% pois em 1685, em média, restavam quatro mil famílias indígenas, e que de acordo com o autor, o arcebispo Liñán y Cisneros afirmavam que jamais houve aniquilamento da população nativa, e que os mesmos fugiam das terras para não pagarem tributos aos colonizadores. Havia uma alternância de regras para a exploração do trabalho indígena, aparentemente, pois na prática a cada dia, os nativos estavam sendo eliminados da terra.
          Galeano (2010, p.41-42), enfatiza que:


A ficção da legalidade amparava o índio; a exploração da realidade o dessangrava. Da escravidão à servidão, do trabalho forçado ao regime de salários, as variantes da condição jurídica da mão de obra indígena só alteravam superficialmente a situação real. A Coroa considerava tão necessária a exploração desumana da força de trabalho aborígine que, em 1601, Felipe III ditou regras proibindo o trabalho forçado nas minas e, ao mesmo tempo, enviou instruções secretas, ordenando que fosse continuado “se aquela medida afetasse a produção”. Do mesmo modo, entre 1616 e 1619, o visitador e governador Juan de Solórzano fez uma investigação sobre as condições de trabalho nas minas de mercúrio de Huancavélica: “(...) o veneno penetrava na pura medula, debilitando os membros todos e provocando um tremor constante, morrendo os operários, geralmente, após quatro anos”, informou ao Conselho das Índias e ao monarca. Mas em 1631, Felipe IV ordenou que se continuasse com o mesmo sistema, e seu sucessor, Carlos II, tempos depois renovou o decreto. Essas minas de mercúrio eram exploradas diretamente pela Coroa, diferentemente das minas de prata, que estavam nas mãos de empresários privados.

                
             Na obra de Tzvetan Todorov, “A conquista da América: a questão do outro”, no capitulo “Amar” o autor vai abordar de maneira especial o modelo de superioridade adotado pelos Europeus no início da colonização da América, modelo este que os mesmos defendiam como o correto a ser seguido, era como se os Europeus fossem Deuses e que suas ideias eram as únicas verdades e que eles eram indestrutíveis. Pois os mesmos, eram os detentores dos melhores e mais sofisticados armamentos e os mais habilidosos estrategistas de guerra, e os índios eram considerados a raça inferior, que possuíam apenas armamentos de madeira. Porém, o mesmo aponta como os espanhóis destruíram a civilização asteca e como assimilaram essa civilização, fazendo surgir uma nova cultura mestiça uma mistura de índios e espanhóis.
          O autor aponta que o genocídio indígena na América no século XVI aconteceu de dois modos: quantitativo e qualitativo. E que na realidade não há estatísticas atuais do número de indígenas desaparecidos no início da colonização da América.  Alguns historiadores propõem números para calcular a destruição dos índios, Las Casas diz “cem mil” ou “um milhão” Todorov (1999,p.157). Sendo que é quase impossível um cálculo preciso da quantidade de índios que foram dizimados da América, pois nenhum dos grandes massacres ocorridos no século XX, pode se comparar ao genocídio do início da colonização da América, tanto dos índios quanto dos negros.
            Assim afirma Todorov (1999, p. 158):

É um recorde, parece-me, não somente em termos relativos (uma destruição da ordem de 90% e mais), mas também absolutos, já que estamos falando de uma diminuição da população estimada em 70 milhões de seres humanos. Nenhum dos grandes massacres do século XX pode comparar-se a esta hecatombe. Compreende-se o quanto são vãos os esforções feitos por alguns autores para se dissipar o que é chamado de “lenda negra”, estabelecendo a responsabilidade da Espanha nesse genocídio e manchando assim sua reputação.

           
            Diante disso, o autor examina a destruição dos índios no plano qualitativo afirmando que a Espanha foi a principal responsável pela segunda e pela terceira forma de morte dos indígenas, na qual ele destaca que os maus tratos impostos pelos espanhóis nas minas não eram a única forma de sofrimento, pois com desejo de enriquecer, os europeus impunham condições  de trabalho desumanas para os indígenas sem haver o menor interesse pela saúde deles, sendo que em média um indígena que trabalhasse nas minas vivia cerca de 25 anos. Além disso, os mesmos eram obrigados a pagar altos impostos aos colonizadores. Esses impostos eram tão elevados que muitas pessoas eram obrigadas a vender suas terras, e muitas vezes nem conseguiam pagar, o que levou muitas vilas a ficarem totalmente despovoadas. Sendo assim, a escravidão provocou diminuições significativas da população da América.
            Todorov afirma que frei Motolinia, um antigo membro do grupo franciscano que chegou ao México em 1523, fez um comparativo da chegada dos europeus a América com as pragas do Egito citadas na Bíblia, porém essa afirmação se torna realista nos primeiros anos da chegada dos europeus ao México afirmando que estes são os responsáveis por as “pragas” que castigaram essa colônia.
            Segundo Todorov (1999, p.162-165):

A primeira praga foi a varíola, trazida por um soldado de Narvaez (...).  A segunda praga foi o numero dos que morreram quando da conquista da nova Espanha, particularmente nos arredores da cidade do México (...). A terceira praga foi uma grande fome que se abateu imediatamente após a tomada da cidade do México (...). A quarta praga foi a dos calpixques, ou fiscais, e dos negros(...). A quinta praga foi a dos impostos elevados e os serviços devidos pelos índios (...). A sexta praga foram as minas de ouro. Seria impossível contar o numero de escravos índios que ate agora morreram nessas minas (...). A sétima praga foi a construção da grande cidade do México. Quando da construção alguns eram esmagados por vigas, outros caiam do alto, outros ainda eram enterrados pelos edifícios que eram demolidos num local para serem reconstruídos em outros(...). Muitos índios ali morreram.(...). Na oitava praga foram os escravos que eram jogados nas minas(...). A nona praga foi o serviço das minas, para qual os índios, carregando muito peso, andavam 70 léguas ou mais para trazer provisões (...). Na decima praga, foram as divisões e facções que existiam entre os espanhóis no México.
           

            Por outro lado, o autor aborda a destruição dos índios no aspecto qualitativo como uma forma impressionante e moderna da destruição desses povos no qual o autor cita relatos de testemunhas oculares para enfatizar o genocídio ocorrido, destacando que muitas crianças eram arrancadas dos braços de suas mães e jogas a cachorros na frente delas para que morressem, e muitos  recém-nascidos não podiam chorar na frente de um europeu que os mesmos pegavam-nas e jogavam contra as rochas ou as lançavam no mato para que acabassem de morrer. Além disso, muitos colonizadores abusavam das índias, até mesmo aquelas que tinham companheiros.
            Como aponta Todorov (1999, p. 167):
Enquanto o contra mestre ficava na cabana ou choça com a índia, mandava o marido extrair ouro nas minas; e à noite, quando o infeliz voltava, não somente o cobria de golpes ou chicoteava-o por não ter trazido quantidade suficiente de ouro, como também, muito frequentemente, amarrava seus pés e mãos e jogava-o pra baixo da cama como um cão, antes de deitar-se, bem em cima com sua mulher.



             Em vista dos assuntos apresentados podemos afirmar que, os autores fazem uma importante analise sobre o genocídio que dizimou milhares de pessoas no início da colonização. E que o crescimento de alguns países superpotentes desde muito tempo, está ligado à exploração de regiões em desenvolvimento. Sendo que os diversos autores aqui citados fazem um relato sobre a exploração dos diversos países da América latina pelos Europeus narrando fatos que corriqueiramente são deixados em segundo plano pela História Global, e destacando o desenvolvimento histórico do processo de formação sociocultural desses países, bem como, por exemplo, o grande massacre populacional ocorrido na América no período colonial pelos Europeus, enfatizando o choque entre o conquistador e os povos indígenas, além do modo que aconteceu a aculturação dos índios. Pois o processo de conquista aconteceu de forma bélica ou militar e de dominação cultural. Foi um acontecimento contínuo e lento, que durou vários séculos, e que grande parcela da população da América foi dizimada. Sendo assim, muitos historiadores destacam como um dos períodos mais violentos da história da humanidade.                 


REFERÊNCIAS


COTRIN, Gilberto. História Global: Brasil e Geral. 2.ed. Saraiva. São Paulo, 2013.

FAUSTO, Boris. História do Brasil: História do Brasil cobre um período de mais de quinhentos anos, desde as raízes da colonização portuguesa até nossos dias. São Paulo: Edusp,1996.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre, RS: L&PM, 2010.

LAS CASAS, Bartolomé de. O paraíso destruído: brevíssima relação da destruição das Índias. 6ª ed. Porto Alegre: L&PM, 1996.

MONTAIGNE, Michel Eyquem de. Ensaios. São Paulo, Nova Cultural, 1984.

PINSKY, Jaime. História da América através de textos. São Paulo: Contexto,1989.

SILVA FILHO, José Carlos Moreira. Da ‘invasão’ da América aos sistemas penais de hoje: o discurso da ‘inferioridade’ latino-americana. In: WOLKMER, Antônio Carlos (org.). Fundamentos de história do direito. 2ª ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2003.

TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América. A Questão do Outro. SP: Martins Fontes Editora Ltda, 1999.

VESPÚCIO, Américo. Novo Mundo: as cartas que batizaram a América.
introdução e notas de Eduardo Bueno. São Paulo: Planeta do Brasil, 2003.




[1] Graduado em Licenciatura em Filosofia pelo Instituto Católico de Estudos Superiores do Piauí - ICESPI. Teresina-PI. Graduando em História pela Universidade Federal do Piauí, Campus Senador Helvidio Nunes de Barros, Picos-PI. Graduando em Filosofia pelo Instituto Católico de Estudos Superiores do Piauí – ICESPI – Teresina – PI.